Crônica Social – O ANEL, A TAÇA E O ESPELHO

PUBLICIDADE

658888_1655204724080_WC_VeZ0g8Eo3NJo_IOAPNg
Crônica Social – O ANEL, A TAÇA E O ESPELHO

Há cidades que crescem para fora e homens que crescem para dentro. Guanambi, ao que parece, estica suas bordas enquanto alguns personagens reaprendem a se olhar no espelho — aquele mesmo que a política costuma embaçar conforme a conveniência da luz.

Descobriu-se, com certo atraso poético, que o anel rodoviário já não comporta os sonhos de quem deseja passar. O asfalto, antes caminho, agora é metáfora do freio. E o futuro, palavra ampla, surge como mantra repetido por quem, curioso, já esteve em quase todos os cômodos do poder: vereador, secretário, vice, prefeito de ocasião. Faltava apenas o papel de profeta.

Mas os espelhos são traiçoeiros. Eles refletem não só o rosto que se oferece ao presente, mas também as sombras arquivadas no passado. Houve um tempo em que os encontros não eram brindes, mas petições; não haviam taças, mas protocolos; não se falavam em alianças, e sim em representações judiciais cuidadosamente endereçadas quando Charles Fernandes governava a cidade. Naquela estação, o vinho ainda não havia sido aberto — o que se servia era tinta, papel e silêncio formal.

Hoje, a cena mudou. As salas são outras, as luzes mais baixas. As conversas escorrem suaves, envelhecidas em barris de conveniência. Garrafas se abrem como quem abre possibilidades, e as palavras circulam em torno da mesa tentando unir o que ontem se acusava. O passado, esse convidado incômodo, é mantido do lado de fora, batendo à porta como quem pede apenas para ser lembrado.

Fala-se em pensar grande, mas grande mesmo é a habilidade de transformar antigos embates em brindes elegantes. A política, como o vinho, exige tempo — mas também exige paladar honesto. Nem todo líquido amadurecido é nobre; alguns apenas perderam o gosto original.

E Guanambi observa. Observa porque cidades têm memória, mesmo quando os homens fingem não ter. O anel pode até ser novo, mais largo, mais moderno. Mas se for construído sobre esquecimentos seletivos e taças que se erguem para encobrir contradições, continuará sendo apenas isso: um círculo.

E todo círculo, por mais bonito que pareça, sempre termina onde começou.

Créditos: Juliana Alves (MTB – 06507/BA)

(foto ilustrativa da internet)

Mais recentes

PUBLICIDADE

Rolar para cima